Chuva de Época é o primeiro livro de poemas de
José Maria de Aguiar Carreiro. A epígrafe que abre o livro, um verso
de Jorge Luis Borges – “Somos a água, e não o diamante duro, / a que se
perde, não a que repousa” –, coloca-nos de imediato perante um horizonte
de leitura que o que se segue há-de confirmar. Constituído de duas
partes, “Nada Nunca de Ninguém” e “O Riso dos Poetas”, o presente
poemário faz da(s) continuidade(s), melhor, da consciência dela(s), o
chão do seu dizer ou, como se pode ler no poema “Estes dias que nos
Separam”: "farei do gesto uma cópia / infinita dos gestos dos gestos".
Da negatividade
ontológica à negatividade temporal e psicológica,
José Maria de
Aguiar Carreiro procura, nos poemas que estão
dentro, a
completude impossível para uma palavra poética a que os advérbios (“Nada
Nunca...”), que estão acima, nos sobreavisam para a ausência
dela. A epígrafe reconfirma-se: não há presenças a que o dizer poético
se possa juntar, nem continuidades de que a poesia seja o seu assomo de
felicidade. Face à ausência – de si, dos outros e de um presente que
nunca é –, que resta ao poeta senão a reafirmação dos advérbios? Chuva de Época instala-se no interior dessas ausências, para daí
dizer o que dizer não se pode. O riso é o sinal desse impoder, e disso o
poeta nos faz seus cúmplices.
Fernando Martinho Guimarães
(Ponta Delgada, 2005)
(...) poética
(...) elíptica, tan entregue á gramática do fragmento. Experimentei
gratos reenvíos a outros lugares e textos. Por suposto ao Barthes de
Fragments, un libro
átopos por seguirlle o xogo. (...) Tamén Resnais, o
Marienbad, non sei ben
por que motivo, as poéticas todas ditas "do espazo".
Chuva de Época
semella ser un libro francés aos meus ollos, cunha decidida
tematización da espacialidade, da habitabilidade, dos ocos e os
baleiros revisitados ou presaxiados, dos segmentos de vida
formulada. Mediterráneo acaso malia o lugar onde foi pensado, grego
na semántica como o foron algúns dos arcaicos, entregando case todo
ao non dito ou só suxerido, e sendo á vez, en simultaneidade
inesquivábel, metadiscursivos, reiterados e autorreferentes na
textualidade que se demora como coordenadas non só da escrita senón
tamén do experimentado, da vida en suma e dos seus azares obxectivos.
Arturo Casas
(Santiago de Compostela, 2006)